ESCREVER ALTO

ESCREVER ALTO

Mas o tempo… como o tempo primeiro nos prende e depois nos confunde. Nós achamos que estávamos a ser maduros quando só estávamos a ser prudentes. Nós imaginamos que estávamos a ser responsáveis, mas estávamos apenas a ser covardes. O que chamamos de realismo era apenas uma forma de evitar as coisas em vez de as encarar. O tempo… dá-nos tempo suficiente para que nossas decisões mais fundamentadas pareçam hesitações, as nossas certezas, meros caprichos.”

Abr 15
leitura#522

"No país da magia o pensamento difere totalmente do nosso. O pensamento chega, forma-se, faz-se nítido e assim mesmo afasta-se. Eu sentia a diferença muito bem. Estas espécies de presenças esparsas, estas vagas e contraditórias ideias que, permanentemente e sem proveito para os outros nem para nós, aqui na Europa atravessam a nossa cabeça, são larvas que lá se não vêem: foi construída a grande barragem que cerca os países deles. Só uns tantos pensamentos raros e fortemente veiculados de magos e ascetas hindus moribundos também, conseguem atravessá-la, e apesar disso por muito pouco tempo.”

Abr 14
leitura#521
Gianni Berengo Gardin -  Asciano, Siena 1961
Abr 14

Gianni Berengo Gardin -  Asciano, Siena 1961

«O corpo da mulher rola para dentro de casa como um embrulho, as roupas encardidas pela humidade. O cabelo está de tal modo entrelaçado que nem a água quente o conseguirá desembaraçar com a lavagem. Estende-se no chão da sala, exausta. O primeiro movimento que faz é mostrar as cicatrizes dos braços e apontar para alguns sinais junto do umbigo. A carpete fica molhada ao contacto com a roupa, desenhando uma pequena silhueta, uma mancha que há-de ficar para sempre gravada naquele espaço do chão. Mateus está de pé junto a ela, descalço, incapaz de dizer ou fazer o que quer que seja. Sente o calor subir-lhe pelas pernas e as mãos trémulas. Deixa a porta aberta. Das escadas vêm uns grunhidos, alguém grita para que acendam a luz, alguém apanhado na escuridão entre dois andares. Um dos vizinhos abre a porta e pergunta se querem que ele desça com uma pilha. Quem grita é a mesma mulher que ali passa diariamente cheia de sacos de plástico e que agora ameaça deitar fogo ao prédio.»

Abr 11
leitura#520

”(…) Agora, aqui, a escrever sobre a mesma cómoda onde nasceu Alberto Caeiro em uma noite mágica, reparo que ela não é alta como o poeta dissera. Tem a altura normal de uma cómoda normal. Não é alta para uma cómoda antiga, nem para uma contemporânea. Por que será que ele adjetivou a peça assim? Dizendo que a cómoda onde escrevia sua poesia era alta em vez de dizer que escrevia, na sua cómoda, alta poesia? O que será que quis dizer o poeta sobre o móvel  no qual tenho agora deitado o meu caderno?…”

Abr 9
leitura#519

"Parte do jogo da vida consiste nas relações mútuas entre os seres humanos. Imaginemos duas pessoas que pela primeira vez trocam um olhar entre si. Que pode haver de mais inconsciente, mais ténue, mais remoto e casual do que esse laço que se estabelece entre elas? E no entanto pode ele ser fadado a assumir num certo dia inimaginável, um carácter de ardente intensidade, de temível e pasmoso imediatismo."

Abr 8
leitura#518
Gustav Klimt, O beijo
Abr 7

Gustav Klimt, O beijo

"O truque é manter a verdade sempre à cabeça da nossa consciência no dia a dia."

Abr 7
leitura#517

"uma doce alegria percorre-me o corpo, ainda antes dos meus lábios se unirem para pronunciar a palavra sul, como um beijo ansiado. um sopro meridional que me anima e antecipa a palavra mágica, que me aquece o olhar e habita o olfacto de uma inexplicável doçura, como se dispensasse a necessidade de a pronunciar. o Sul continua a ser uma transgressão, que me sujeita ao sacrifício da travessia da ponte e exige o ritual da espera do ferry, para finalmente me escancarar o horizonte e entregar à volúpia dos mistérios. este Sul que eu amo e de que sinto uma necessidade tão prosaica como pão para a boca, só existe uma vez transposta a fronteira do rio, como ponte móvel que me une as margens interiores. entre uma e outra, fica a nostalgia da minha ambição apátrida, apenas vislumbrada quando as minhas costas selam os labirintos do Norte, para que o meu olhar se abandone à plenitude do Sul.”

Abr 4
leitura#516
The Great Gatsby
Abr 4

The Great Gatsby